E tudo se calou de novo. Consegues ouvir? Consegues sentir este silêncio? Tu conhece-lo, tu sabes o que significa, mas nem dás conta. Descortina-o. Ouve-o com intenções de ouvir. Fecha os olhos, e vai para além da escuridão que te assombra. Respira-o. Saboreia-o.
E agora olhas-me. Fixas-te em mim, como jamais alguma vez te fixas-te. Mas tens algo a dizer, e eu sei. Falta-te a coragem, mais uma vez. Mas diz-me. Di-lo agora. Diz-me que me amas, e que não podes, diz-me que hoje, me vez da mais bela forma, da forma que tu jamais me olhas-te. E vê a forma com que me deixas-te desde a nossa última conversa. Mas sabes, tu podes olhar tantas as vezes que nunca irás reparar. Nunca verás a essência da verdade, nem a sua totalidade.
Estou na mesma encruzilhada em que me deixas-te há dez meses atrás. Continuo a ver, se vejo para lá dos caminhos que me puses-te em frente dos pés. Tenho medo dos becos que eles escondem. Tenho medo das esquinas que possam conter. Tenho medo de estradas estreitas, levam-me ao sufoco. Tenho medo de estradas demasiado largas, levam-me ao desespero.
Não sei por onde te procurar, e sinceramente, tenho medo de como te irei encontrar. Não sei se estás feliz. Não sei se tens alguém. Não sei se mudas-te, se continuas o mesmo. Não sei de ti.
Darei contigo num beco também? E se estiveres bem e feliz? Não tenho o direito de interferir. Nunca tive. E se não tiveres? Estarás disposto a dar-me a mão e dar mais uma caminhada? Contando tudo desde o ínico?
Saboreia o silêncio em que estás envolto. Dá-me a mão. Caminha de forma a que os nossos ombros se roçem, ou então, pega-me ao colo e faz-me rir muito.
Tenho saudades tuas. Dos teus telefonemas. Do teu riso. Principalmente do teu riso. Lembro-me como ele influenciava tudo o resto: os teus olhos castanhos brilhavam um pouco mais e se fechavam, quando a tua boca se estendia para um sorriso largo. Do teu cabelo e a forma como dançava ao teu próprio som, ao ritmo que tu estimulavas para ti mesmo. E quando o fazias, as tuas mãos procuravam-me, num gesto em que nem tu davas conta que realizavas. E sabes porquê? Porque também me amavas. E quando se ama agimos sem pensar e nem sabemos o que estamos realmente a fazer. As tuas mãos eram a minha garantia, e ainda hoje sei cada traço que as compõe, conseguia desenhá-las de olhos fechados, ou reconhecê-las no meio de tantas outras.
Ouve o silêncio. Concentra-te em ti. Sentes o teu coração? Ouve-lo bem agora? Eu oiço o meu. Ele ainda me parece ensurdecedor, talvez ainda o seja, e quando se trata de ti ele grita-me.
Há dias, em que ainda o sinto frio e quebradiço. Há dias, em que ainda preciso de o tirar cá para fora, para o manter quente e seguro. Há dias, em que tenho que reforçar o escudo que lhe adicionei. E hoje parece-me que as dores de um coração partido começam a ser relativas. Já não me magoam com tanta facilidade nem com a mesma perspicácia.
Mas diz-me: onde estás? Se estiveres num beco, eu vou ter contigo, não me importa que a estrada seja estreita ou larga, não me importa que haja demasiadas esquinas ou becos, garante-me apenas que no final da estrada te encontrarei. Assegura-me apenas a tua presença, as tuas mãos quentes sobre as minhas e o teu abraço apertado a fustigar-me o corpo. Promete-me apenas que no final estarás lá tu. Como sempre estives-te.

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